
Uma das imagens que moram na minha cabeça é de ondas verdes quebrando com o nascer do sol. Quando eu estava no primeiro ano do segundo grau, pintei as costas de uma camiseta com um surfista, seus braços virando asas que tomavam conta das costas da t-shirt. Copiei o desenho de um pequeno anúncio de uma Surf Shop numa revista. Uma professora, a Ana, olhou aquilo e disse: Vem trabalhar na minha confecção, tu vai ser o serigrafista! E lá fui eu aprender o ofício e derramar nanquim sobre o papel vegetal até ele ficar empenado que nem um chapéu de atropelado. Eram apenas dois funcionários ali, eu e a Jussara. A Jussara era uma mulher dos seus 30 anos, já tinha quatro filhos, dois casais, um casal de olhos e cabelos escuros como carvão e o outro de olhos e cabelos claros, nem pareciam irmãos, de tão diferentes. O marido da Jussara era vendedor de sapatos, aparecia em casa a cada semana ou duas, gritava com todo mundo, porque é isso que os machões tem que fazer, esvaziava as bolas na mulher e o saco nos filhos e voltava pro trabalho. A Jussara não desanimava. Ela foi uma das primeiras pessoas que conheci que sabia rir de suas próprias cagadas. Soltava entre seus has-has-has nuvens da fumaça dos seus Sheltons Filtro, seus olhos viravam dois risquinhos curvos e a sua risada era quase uma tosse. Mas ela ria, ela tinha motivos. A Jussara era a maior fã dos seus filhos, vivia falando neles, seu rosto se iluminava quando ela lembrava de qualquer um dos quatro.
Jussara riu até o último dia que um câncer generalizado deixou. Fez piada de si mesma até alguns minutos antes de fechar os olhos-risquinhos pela última vez.
O nome da loja era Surf Angel.
Em 1984 eu pegava onda em Tramandawaii e Waimbéa, especialmente de manhã e emais especialmente ainda no inverno. Surfar é tão legal quanto andar de skate, só que os tombos são piores, não te ilude com a água, ela te joga contra o fundo.
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